“O verdadeiro servo de Deus é aquele que usa a caridade para com seu próximo,
que está decidido a fazer a vontade de Deus a todo custo, que vive em profunda humildade e simplicidade.”
Padre Pio de Pietrelcina (1887-1968)
Beneficência e caridade não são necessariamente a mesma coisa. São Paulo falou sobre isso quando escreveu aos Coríntios: “Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria!” (1Cor 13,3).
O bem realizado só se torna caridade, quando é realizado por quem seja capaz de buscar a conversão e a bondade. Desse modo, a própria pessoa assume as características do amor que pratica, conforme ensina o mesmo Paulo: “A caridade é paciente, é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13,4-7).
É por isso que não faz sentido pensar que o bem possa ser realizado por quem só alimenta o ódio. E também é inconcebível que se fale de fraternidade sem que se assuma a atitude fraterna que caracteriza quem quer construí-la. “A fraternidade nasce de um dado profundamente humano. Somos capazes de relação e, se quisermos, sabemos construir ligames autênticos entre nós. Sem relações, que nos sustentam e que nos enriquecem desde o início da nossa vida, não poderemos sobreviver, crescer e aprender. (…) Se somos inclinados sobre nós mesmos, corremos o risco de adoecermos de solidão, e também de um narcisismo que só se preocupa com os outros por interesse. O outro se reduz então a alguém do qual se recebe, sem que nunca estejamos dispostos a dar, a doar–nos. Sabemos bem que também hoje a fraternidade não nasce sozinha, não é imediata. Muitos conflitos, tantas guerras espalhadas pelo mundo, tensões sociais e sentimentos de ódio parecem demonstrar o contrário. Todavia, a fraternidade não é só um belo sonho impossível, não é um desejo de poucos iludidos. Mas, para superar as sombras que a ameaçam, é necessário ir às fontes, e sobretudo encontrar luz e força no único que nos liberta do veneno da inimizade” (Leão XIV, Audiência Geral, 12.11.2025). “Porque Ele é a nossa paz, Ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de inimizada que os separava” (Ef 2,14). É, portanto, de nossa conversão a Cristo que nasce a verdadeira fraternidade e, sem essa conversão, não é possível falar de Cristo.
Por isso, Ele ensinou: “Quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem elogiados pelos homens. Em verdade vos digo: eles já receberam a sua recompensa. Ao contrário, quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita, de modo que a tua esmola fique oculta. E o teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa” (Mt 6,2-4).
Mas, falando em conversão, não podemos pensar que se trate de uma coisa íntima, que diga respeito só a nós mesmos, tal como ensina São Tiago: “De que aproveitará, irmãos, a alguém dizer que tem fé, se não tiver obras? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se a um irmão ou a uma irmã faltarem roupas e o alimento cotidiano, e algum de vós lhes disser: ‘Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos’, mas não lhes der o necessário para o corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se não tiver obras, é morta em si mesma” (Tg 2, 14-17).
Escrito por Dom Rogério Augusto das Neves (Bispo Auxiliar de São Paulo, SP).
Artigo extraído do suplemento do folheto litúrgico Povo de Deus, de 18 de fevereiro de 2026 (quarta-feira de cinzas).
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Nota da editoria:
A imagem da capa é um recorte da obra: “As Respigadoras” (1857), de Jean-François Millet (1814-1875).
Sobre a pintura: retrata três camponesas em primeiro plano, inclinadas para recolher os restos da colheita de trigo. Seus olhares não se dirigem ao espectador, e seus rostos permanecem sombreados, quase anônimos. Ao fundo, o senhorio supervisiona os trabalhadores à distância, o que sugere que as mulheres em primeiro plano ocupam posição tão baixa na hierarquia social que sequer exigem vigilância direta. A solidariedade silenciosa e a dignidade partilhada no trabalho evocam uma fraternidade social discreta, nascida da própria condição comum.





